Reis, Rainhas e Presidentes de Portugal

D. Afonso Henriques

Filipe I

Manuel de Arriaga

D. Sancho I

Filipe II

Teófilo Braga

D. Afonso II

Filipe III

Bernardino Machado

D. Sancho II

D. João IV

Sidónio Pais

D. Afonso III

D. Afonso VI

João do Canto e Castro

D. Dinis

D. Pedro II

António José de Almeida

D. Afonso IV

D. João V

Manuel Teixeira Gomes

D. Pedro I

D. José I

Mendes Cabeçadas

D. Fernando I

D. Maria I

Gomes da Costa

D. João I

D. João VI

António Carmona

D. Duarte

D. Pedro IV

Craveiro Lopes

D. Afonso V

D. Miguel

Américo Tomás

D. João II

D. Maria II

António de Spínola

D. Manuel I

D. Pedro V

Costa Gomes

D. João III

D. Luís

Ramalho Eanes

D. Sebastião

D. Carlos

Mário Soares

D. Henrique

D. Manuel II

Jorge Sampaio

D. António

Cavaco Silva

http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/index.html

SIDÓNIO PAIS

Presidente - Rei: 1872 - 1918

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1872: Natural de Caminha, onde nasceu no dia 1.º de Maio. - 1888: Alista-se como voluntário no Regimento de Infantaria 23, não tardando a ver-se promovido a sargento-cadete de artilharia para prestar serviço no Regimento n.º 1 da mesma Arma. - 1891: Assina o Manifesto Académico redigido por João Meneses. - 1892: Completa o Curso da Escola do Exército. - 1899: Ingressa no corpo docente daquela Faculdade onde será nomeado professor catedrático para reger a 3.ª cadeira de Cálculo Diferencial e Integral. - 1906: É promovido a capitão. - 1908: Profere a sua oração de sapiência na Universidade de Coimbra. - 1911: Nas bancadas da primeira Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 28 de Maio de 1911, Sidónio Pais arranja assento como deputado pelo círculo de Aveiro. É Ministro do Fomento no Governo chefiado por João Chagas. - 1912: Ministro das Finanças no Governo de Augusto de Vasconcelos. Exercerá, até meados de 1916, as funções de ministro plenipotenciário em Berlim regressando a Lisboa, com a declaração de estado de guerra entre Portugal e a Alemanha, sendo então colocado como alto funcionário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. - 1917: Comanda o golpe militar que o levará a ser eleito Presidente da República. - 1918: É assassinado ao entrar na Estação do Rossio.

QUEM SOU. MINHAS ORIGENS

Nome completo: Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais.

Sou filho de um escrivão, que me deixou órfão muito cedo, a mim e aos meus dois irmãos. A minha família parece ter vindo a este mundo marcada pelo signo de uma tragédia que já levou à loucura e à morte vários familiares meus. Primeiro foi um tio, que se ordenou padre em Braga, e que morreu no Brasil, atacado de demência. Depois foi a minha irmã a que sucedeu a mesma tragédia e, mais tarde, quando eu for presidente, o meu irmão Aureliano morrerá no Hospital do Conde de Ferreira, atacado de loucura incurável.

A vida não começa fácil para mim. Talvez por isso, desde cedo me deixo encantar pelas casernas. Aos 16 anos já marco passo no Regimento de Infantaria 23. Completo o Curso da Escola do Exército e, pouco depois, parto para Coimbra onde vou preparando o Magistério. Antes, fui vogal da Comissão de Balística presidida pelo general Fernandes da Costa, a quem fiquei a dever grandes favores na conciliação das funções militares e de estudioso doutorando.

Após ter andado pelas escolas industriais e, mais tarde, na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, acabo por ingressar no corpo docente daquela Faculdade onde sou nomeado professor catedrático para reger a 3.ª cadeira de Cálculo Diferencial e Integral. 

            

A MORTE

Entretanto, a situação no Porto torna-se cada vez mais confusa. Resolvo ir eu próprio à capital do Norte e tentar resolver pessoalmente os problemas levantados pelas Juntas Militares.

Mas basta que eu assim pense e imediatamente se ergue um monumental coro de vozes sugerindo que não devo sair de Lisboa. Argumentam intenções de me proteger contra prováveis atentados e Sollari Allegro, meu representante no Norte, envia-me um telegrama aconselhando-me a «não cair na asneira de se deslocar ao Porto».

No intuito de impedir a minha deslocação, as autoridades nortenhas chegam a informar Belém de que não é possível organizar a tempo os preparativos para a recepção presidencial. Sollari Allegro vai mesmo mais longe e chega a afirmar que se eu escapasse em Lisboa, no Entroncamento ou na Mealhada, não escaparia no Porto

Em Lisboa, o governador civil, Sousa Fernandes, tenta, igualmente, demover-me de ir ao Norte. O mesmo acontece com o responsável pela pasta da Guerra, que me indica ter notícias de se estar a preparar urna manifestação de famílias de presos políticos, para a estação do Rossio, onde eu deverei embarcar.

Não quero saber do que me dizem acerca dos atentados e respondo:

- E que tem isso? Ou eles ou eu!

O governador civil, desiludido, responde, ao despedir-se de mim:

- Julgo da minha obrigação dar este conselho a V. Ex.a O meu presidente fará o que entender. Lá estarei à noite no Rossio, para cumprir o meu dever, e oxalá V. Ex.a não tenha de se arrepender.

Já perto da noite, o capitão Carneira insiste, também, junto de mim, no sentido de me dissuadir, mas a minha disposição é inabalável:

- Não desisto - vou! Não te preocupes comigo. As balas disparadas contra mim, bem sabes que se encravam.

Mas, infelizmente para mim, desta vez não se encravam as balas disparadas pelo homem que espera por mim no Rossio.

 

* * *

Cai o presidente

e agora toma a palavra

o autor do livro

Sidónio - Ele tornará feito qualquer outro”:

Em Belém, o presidente acaba de jantar. Nas ruas desertas acendem-se os bicos de gás da iluminação pública e a noite começa a aparecer densa, neste sábado de 14 de Dezembro de 1918.

A esta mesma hora, um desconhecido janta numa das mesas do Restaurante Silva, em pleno Chiado. Perto dele, sentado numa mesa próxima, está o governador civil, Sousa Fernandes. Fala-se da viagem do presidente ao Norte. O desconhecido acaba de jantar, paga a conta e sai sem uma palavra. Dirige-se à Estação do Rossio, a dois passos dali.

No Rossio, vê-se já a Guarda Republicana, com fardas de gala, preparada para formar sob o alpendre, onde prestará a guarda de honra devida ao presidente da República. Vão chegando polícias, mais polícias do que habitualmente. No Teatro Nacional, frente à Estação, representa-se a peça de Afonso Gaio Abel e Caim. Nela, Adelina Abranches faz o papel de bruxa.

Para ver o cerimonial da partida do presidente, junta-se uma multidão, na sua maioria constituída por gente que acaba de sair das casas de espectáculos.

No Politeama, Maria Bastos interpreta A Vizinha do Lado; no Avenida, Palmira Bastos faz de Leonor Teles no drama histórico de Marcelino Mesquita; no Éden, Ausenda de Oliveira é a estrela da fantasia Sangue Artista; Naná é o filme que o Olímpia projecta nessa noite.

Nos cafés Suíço e Martinho, as mesas enchem-se de clientes e adensa-se o fumo dos cigarros. Faltam dez minutos para a meia-noite. Os acordes do Hino Nacional, tocado pela banda da Guarda de Honra, começam a ser ouvidos, dando conta da chegada do automóvel presidencial. De Belém ao Rossio demorara apenas quinze minutos.

O aparato policial impressiona o próprio presidente: - Que exagero! Nem que eu fosse o czar da Rússia...., diz Sidónio, ao apear-se do carro que o deixa junto à estação.

Como sempre, vem impecavelmente vestido. Sob o majestoso capote de mescla cinzenta, cravejado de estrelas presidenciais, um elegantíssimo colete de lã preta forrado a cetinela branca - confeccionado na loja Eduardo & Santos, na Rua 1.º de Dezembro, 148 - protege a fina camisa de paninho branco, com punhos engomados e peitilho de zefir da mesma cor - padrão exclusivo da firma Pitta & C. ª, da Rua Augusta, n.º 197. Um dólman e uma camisola aberta de «crepon» branco, sem gola, para maior destaque dos vistosos colarinhos de linho branco engomado, igualmente da marca Pitta, dão a nota final a um porte de soberba elegância que afamara Sidónio Pais. Nesta noite, o presidente veste ceroulas de «crepon» branco com a etiqueta Crépe de Santé-Rumpf e compõe a parte interior do seu trajar com suspensórios de tecido de algodão de cor castanho-claro por fora e branca por dentro.

A multidão ovaciona-o. O presidente prepara-se para entrar no grande átrio da estação, atravessando duas compactas filas de polícias, que o protegem de toda aquela gente que acorrera ali para o ver e saudar.

De repente, abate-se sobre a mole humana um autêntico vendaval de pânico. De todas as portas da estação sai gente a correr, enlouquecida, procurando esconder-se nas escadas dos prédios próximos.

Há tiros e gritos por todo o lado. No meio da tormenta, o automóvel da Presidência da República parte a grande velocidade para o Hospital de S. José. Dentro de minutos, toda a gente fica a saber o que aconteceu. De bairro em bairro, a notícia chega da mesma forma:

- «Mataram o Sidónio! Mataram o Sidónio!»

O homem de capa alentejana, que umas horas antes jantara no Restaurante Silva, tinha acabado de disparar contra o presidente Sidónio Pais. Chama-se José Júlio da Costa.

«A pistola já está pronta», conta José Júlio da Costa, «o dedo no gatilho; para tapar a pistola tinha levado um capote alentejano, que só estava sobre os ombros e, quando o presidente vem quase junto de mim, dei um empurrão nos guardas e, ao mesmo tempo que abria caminho, partiram dois tiros. Foram os dois sobre o lado direito, um para junto do braço e outro no ventre. A República Nova morria com o seu presidente. Não dei um passo para fugir. Acabava assim o absolutismo.»

Limitara-se a empurrar um dos polícias da dupla fila do cordão de segurança e a disparar a sua arma sobre o presidente, que mal tem tempo de reagir.

Sidónio Pais ainda faz um gesto, na intenção de sacar o revólver que traz no bolso esquerdo do capote militar. Porém, um segundo tiro acerta-lhe em cheio e fá-lo cair no limiar da porta que procura transpor.

É tudo tão rápido que só por mero acaso o autor dos disparos é preso no local. Na infernal confusão, a Polícia e a Guarda acometem o justo e o pecador, distribuindo coronhadas ao acaso e desencadeando um furioso tiroteio, que atinge tudo o que está perto.

No chão, Sidónio Pais agoniza, perante os esforços infrutíferos do capitão Carneira, que tenta, a todo o custo, salvar a vida do presidente, protegendo-o com o seu corpo do tiroteio a que se assiste.

«Morro bem! Salvem a Pátria!», afirmam alguns que Sidónio terá dito ao despedir-se deste mundo.

Sidónio Pais chegará já morto ao hospital, onde o médico Torres Pereira praticamente se limita a certificar o óbito.

José Júlio da Costa viera de Garvão, pequena vila do Baixo Alentejo, com objectivo único de pôr fim ao consulado sidonista, começando pela eliminação física do seu principal mentor.

E conseguiu. Tal como há oito anos sucedera com o rei D. Manuel que, no dia da Revolução de 5 de Outubro de 1910, se preparava também para seguir com destino ao Porto, Sidónio Pais já não chega a iniciar a sua viagem para a capital do Norte.

A D. Manuel II, último rei de uma dinastia que vê culminar o seu tempo na História de Portugal, restar-lhe-á um exílio de tranquilidade, que nas praias da Ericeira tem o seu princípio.

A Sidónio Pais, primeiro presidente de um autoritarismo que começou com ele e continuará para além dele, o destino garante-lhe a frieza de um túmulo que as balas de um desconhecido lhe reservam nessa noite de 14 de Dezembro de 1918.

Sidónio fora, de facto, uma legítima esperança no conturbado mundo da política portuguesa e pena foi que não tivesse passado disso mesmo: de uma esperança.

Mas poderia Sidónio ter sido mais do que isso? Poderia Sidónio ser a antítese de um sebastianismo secular, quando ele aparece tal qual um desejado descoberto numa «manhã de nevoeiro»? 

http://www.vidaslusofonas.pt/sidonio_pais.htm

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